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Os portugueses são piores ou melhores que os cidadãos de outras nações no que concerne à literacia científica?



Na comunidade europeia (15) foram feitos inquéritos à cultura cientifica dos cidadãos em 1996 e em 2000. As mesmas perguntas foram feitas nos diferentes países. A ficha técnica do inquérito e os resultados portugueses estão em :

http://www3.oces.mcies.pt/?opcao=4&tema=42

Os resultados incluem uma análise da evolução da situação portuguesa entre 1996 e 2000. Uma das principais conclusões para o inquérito aos Portugueses em 2000 é que o interesse por assuntos científicos e tecnológicos é grande mas os conhecimentos/informação sobre esses assuntos são escassos.



Os resultados a nível europeu estão em:

http://europa.eu.int/comm/research/press/2001/pr0612en.html

com a vantagem de se poder fazer download do relatório em pdf, ao contrário do site português que não permite guardar nenhum ficheiro, não tem uma boa análise de resultados e vem acompanhado de umas conclusões paupérrimas. Tal como para Portugal, o panorama europeu é de que há elevado interesse público por assuntos científicos e tecnológicos mas escassez de informação/conhecimentos sobre os mesmos, ou seja existe um distanciamento entre a sociedade e a ciência. Apesar de existir interesse por assuntos científicos e da ciência ter uma boa imagem junto do público o número de jovens que não está interessado em seguir carreiras cientificas é cada vez maior. Outra conclusão a nível europeu mostra que a literacia cientifica da população europeia se mantém estável desde 1992. Os suecos e os dinamarqueses foram considerados os mais bem informados dos 15 sobre C&T.



Uma análise das tendências nacionais comparadas com as dos outros membros dos 15 revela que os portugueses :

- São os menos informados sobre ciência e tecnologia (73,2% afirmam estar mal informados).

- Não gostam de ler artigos sobre C&T (78.7% afirmam raramente ler sobre C&T).



A figura no topo deste post é da autoria de A. C. Moutinho e M.M. Godinho (ISEG, UTL) e foi utilizada pelos autores numa apresentação intitulada “S&T culture: A blooming dimension” na 8ª conferência de indicadores de C&T realizada em Setembro de 2004. Estes autores fazem uma boa (e interessante) análise da situação portuguesa e sua comparação com os 15.



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Uma pessoa formada em ciências é considerada inculta se não souber quem é o José Saramago, mas o José Saramago não é considerado inculto se não souber o que é um caudal!

Estará isto correcto? Não deveriam todos os cidadãos ter uma cultura científica mínima? Abaixo de um certo limiar não deveriam ser considerados iletrados?

A ciência e a tecnologia são universalmente reconhecidas como muito importantes no mundo actual mas o cidadão comum acha que não ter quaisquer conhecimentos científicos é normal e não é falta de cultura.

Ter conhecimentos em arte e literatura é cultura, ter conhecimentos em matemática e química não. Esta espécie de mito está enraizada em toda a sociedade portuguesa. E ainda não vi em nenhum lado uma explicação para ela.

A maior parte das pessoas ainda não se apercebeu de como isto é grave; outras já se aperceberam. Em entrevista ao “Primeiro de Janeiro” em Março deste ano, o físico Carlos Fiolhais diz:



“…ciência e cultura são indissociáveis, apesar de haver ainda quem não tenha consciência desse facto óbvio. Se há um século o problema das sociedades mais atrasadas era a iliteracia, hoje o problema das sociedades menos desenvolvidas é a iliteracia científica. A ciência é o conhecimento do mundo e só pode triunfar no mundo quem o conheça. Um cidadão de hoje e, ainda mais, um cidadão de amanhã, para poder viver melhor, tem de ter um conhecimento mínimo do mundo e ter uma ideia, ainda que rudimentar, do modo como se ganha esse conhecimento. A cultura científica é não só a posse de alguns factos da ciência mas também e sobretudo o reconhecimento do papel e do valor da ciência: trata-se de uma necessidade incontornável das sociedades modernas. É certo que muitos dos nossos ministérios e organismos públicos parecem viver à margem da ciência. O ministério da cultura na prática só reconhece certas formas de cultura.”



Em 1996 a National Academy of Sciences americana definiu literacia científica:



“A literacia científica significa que uma pessoa pode procurar , encontrar, e determinar as respostas a questões derivadas da sua curiosidade sobre as experiências do dia a dia. Significa que a pessoa tem capacidade para descrever, explicar e predizer fenómenos naturais. A literacia científica inclui o ser capaz de ler e compreender artigos sobre ciência na imprensa pública e envolver-se numa conversação sobre a validade das conclusões. Implica que uma pessoa pode identificar questões problemáticas subjacentes a políticas nacionais e locais e expressar posições científica e tecnologicamente informadas. Deve ser capaz de avaliar a qualidade da informação científica com base nas fontes e métodos para a gerar. Implica a capacidade de colocar e avaliar argumentos baseados na evidência e de aplicar apropriadamente as conclusões a partir desses argumentos”.



Uma definição mais concisa e que me agrada mais foi usada em 1997 por Koballa et.al.( “The spectrum of science literacy”, The Science Teacher, 64(7): 27-31):

“ O conhecimento e a compreensão de conceitos e processos científicos necessários para se tomarem decisões individuais, para a participação cívica e cultural e para se contribuir para a produtividade económica.”



O problema da iliteracia cientifica não é só português. Tanto os EUA como vários países europeus têm-lhe dedicado particular atenção desde há várias décadas.