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A Villa Arpel, cenário do filme "Mon Oncle" de Tati foi reconstituída em tamanho real. A casa tinha sido destruída no final das filmagens do filme (era um cenário). Agora temos a possibilidade de rever toda a domótica dos anos 50 e a fantástica arquitectura futurista outra vez em Paris. No centro cultural centquatre. Tudo foi fielmente reproduzido, até a fontezita em forma de peixe!



Alvíssaras às almas caridosas que puseram tais preciosidades disponíveis para download.

Expoentes máximos do expressionismo alemão cujos direitos de autor caducaram. Faça download nos links abaixo:

Em post anteriores já falei de alguns dos filmes acima. Consulte os arquivos do Blog.

Destes o único que nunca vi foi o Golem. Vou a correr fazer o download.


zemlya
Zemlya (Terra) realizado por Aleksandr Dovzhenko em 1930 celebra a terra e o que ela nos dá. Todas as filmagens da natureza que existem no filme transmitem na perfeição a esmagadora beleza dos campos, das árvores de fruto, dos girassóis, das tarefas agrícolas e a extrema dignidade dos aldeões agricultores. Do vento na seara das imagens da abertura às maças trincadas pelo ancião moribundo e pela criança vivaz, o amor pela Terra transpira por todo o filme.

O filme é na verdade sobre a colectivização na Ucrânia e o enredo é mau , os actores também e a tradução Russo-Inglês da cópia que eu tenho é provavelmente horrível porque a maior parte dos dialógos dos intertítulos é incompreensível. Mas isso são pormenores... Visualmente é um marco histórico! O lirismo visual é comparavel ao brilhante Aurora de Murnau recentemente reposto em salas de cinema em Portugal.

Estão lá todas as características da sociedade soviética de 30, tal como um ocidental as enumeraria: A luta em grupo por um ideal com uma determinação extrema levada às últimas consequências, a filmagem com naturalidade de homens urinando e mulheres em pelo (coisas proibidissímas em cinema ocidental da época), a abordagem da morte como um mero fim de ciclo, a constatação de que uma revolução é uma Rosa mas traz espinhos.

Apesar de ser um filme de propaganda pago pelo governo, o resultado final vai muito para além disso, não chegando no entanto ao nível de um Eisenstein. A montagem é genial e sensual: a sequência acelerada que começa com a colheita do cereal e mostra todo o processo de processamento é fabulosa; a sequência final em paralelo também. No fim, percebemos claramente a comunhão do agricultor soviético com a terra e a sua ligação espiritual ao campo.

freaks


Freaks (1932) de Tod Browning foi adaptado de um conto intitulado Spurs é isso mesmo, um desfile de gente bizarra. Um leque de anões, várias pessoas sem braços ou pernas, um hermafrodita, 2 irmãs siamesas, gente microcéfala e figuras bizarras afectadas por sindromas genéticos variados. Não existem efeitos especiais e os actores são mesmo pessoas deficientes. Tudo bem regado com sotaques estrangeiros (2 dos anões são alemães e outra personagem é feita por uma francesa) e uma história de terror.
O expoente máximo é o sr. Prince Randian nascido na Guiana que não tinha braços nem pernas, conhecido pelo torso vivo, uma espécie de salsicha humana. O actor viveu até aos 60 e tal anos, teve 5 filhos e conseguia fazer coisas como fazer sozinho a barba, acender um fosfóro, enrolar um cigarro e acendê-lo apenas com a boca. Movimentava-se arrastando-se sobre a barriga. Falava fluentemente 4 linguas ( hindu, inglês, francês e alemão).

freaks
Prince Randian

Mas o objectivo de Browning com este filme não era mostrar uma galeria de anormais. Longe disso, a história tem uma moral e Browning que em adolescente fugiu de casa para se juntar a um circo itinerante mostra uma grande ternura pelos actores. Browning, um desalinhado anti-glamour ao fazer dos deficientes os heróis do filme e dos fisicamente normais os vilões, subverte o convencional e mostra-nos que a beleza é mais espiritual que fisica. Beauty is in the eye of the beholder!
O filme foi muito mal aceite pelo público, emprateleirado pela MGM e proibido em alguns países. Reapareceu em 1962 no festival de Cannes tendo-se tornado imediatamente num filme de culto de sucesso.

tod browning
Tod Browning e vários actores de freaks.

Dos actores, apenas uma minoria eram actores profissionais, a maior parte pertencia a circos itinerantes. Grande parte deles foi imortalizada pelo fotógrafo Edward Kelty que fotografava cocktails em Manhattan, mas tinha como hobby nos tempos livres fotografar circos e carnivales, de preferência grandes fotos de grupo.

kelty

kelty
fotografias de E. Kelty

nanook

Nanook, o esquimó é um filme de Robert J. Flaherty feito em 1922. É considerado o pai dos documentários por ter sido a primeira longa metragem da história do cinema a apresentar este tipo de abordagem. Contudo não pode ser verdadeiramente considerado um documentário pois a maior parte das cenas do filme apesar de mostrarem o quotidiano esquimó foram encenadas para a câmara. Flaherty com o seu interesse etnográfico e o desejo de registar o que o rodeava transformou-se de explorador e prospector profissional em realizador. Neste filme são de realçar as dificuldades técnicas de filmar no árctico com apenas 2 câmaras arcaícas que resistiram bem à humidade e a película usada que realça os azuis.

O filme retrata a vida de uma família verdadeira de esquimós ao longo de um ano com filmagens in loco do seu duro dia-a-dia. A caça, a pesca, as migrações, o comércio de peles, a construção de igloos e todas as dificuldades da vida sem tecnologia de 1922 num clima extremo como o do árctico são-nos mostradas nos 79 minutos que dura o filme. A preto e branco e com intertítulos seguimos a família do espontâneo Nanook– o pai, as suas 2 mulheres e os 2 filhos, um deles bebé, nas suas deambulações. Ficamos a saber que pescar à mão com um arpão exige destreza, que os salmões depois de pescados são mortos à dentada, que os esquimós da altura comiam foca crua, que por baixo das roupas feitas de pele estavam nús (incluindo o bebé que não apresenta nada que se pareça com uma fralda), que uma canoa pequena leva muita gente fora de vista, que se podem construir igloos só com um facão e que as tempestades para aquelas bandas podem matar mesmo quem é muito experiente.

O filme foi rejeitado por vários distribuidores mas quando estreou revelou-se um sucesso de bilheteira estrondoso. A curiosidade do público foi espicaçada pelo facto de Nanook ter morrido meses depois de terem terminado as filmagens. Morreu de fome. Encontrar comida onde nada cresce é um caso de vida ou de morte.

Sunrise Murnau
Continuando a série de
posts sobre o cinema dos anos 20 trago-vos hoje “Sunrise, a song of 2 humansde F.W. Murnau, que em português se chama Aurora. Realizado em 1927 nos EUA com um orçamento chorudo e total liberdade criativa do realizador o filme ganhou o 1º Óscar de melhor filme em 1929. A belíssima fotografia de Karl Struss e Charles Rosher também mereceu um Óscar.

O filme foi um flop comercial na época e em 1937 os negativos arderam num incêndio nos estúdios da Fox. É por isso um milagre que tenha chegado aos nossos dias recuperado e restaurado (a partir de uma cópia em acetato que existia num museu).





Sunrise MurnauO enredo baseado num conto de Hermann Sudermann “Die Reise nach Tilsit” é simples: Um casal de campónios vê a sua pacatez perturbada por uma sedutora vinda da cidade que se torna amante do marido. A sedutora convence o marido a assassinar a mulher e a ir viver com ela para a cidade. Quando está prestes a matar a esposa o marido arrepende-se. Para se redimir e compensar a mulher leva-a a passear na cidade e oferece-lhe todas as coisas fascinantes da vida citadina. Claro que mais tarde a desgraça irá bater à porta…..

Sob este enredo aparentemente simples o filme capta perfeitamente o contraste entre os valores e os estilos de vida citadino e do campo. E explora de forma brilhante o sentimento de culpa e o arrependimento do marido que constituem o ponto de viragem do filme. Antes imagens soturnas e naturalistas com uma iluminação romântica inspiradas nos retratos pastorais dos mestres holandeses (Vermeer e etc.), depois o movimento, a complexidade e a vida da cidade. O filme é essencialmente visual, com poucos intertítulos e uma banda sonora e efeitos sonoros discretos. É mesmo referido como um poema visual dado o lirismo das imagens e a qualidade da fotografia e da iluminação.

Sunrise Murnau
Do ponto de vista técnico o filme apresentava várias inovações como a utilização recorrente de exposições múltiplas, a iluminação das filmagens nocturnas e a filmagem com movimento de câmaras numa altura em tal não se fazia por razões óbvias. A cena no pântano é um disso um exemplo; uma câmara segue o personagem masculino a andar dentro de um terreno pantanoso durante a noite com uma grande lua de fundo - Tudo feito em estúdio com a câmara presa numa plataforma!


O que pode tornar fascinante um filme de terror feito nos idos anos 20 cuja filmagem não tem nada de especial?


caligariNo caso particular do Gabinete do Dr. Caligari e na minha opinião pessoal é apenas o facto do filme ser um dos expoentes do movimento expressionista alemão com o impacto visual que isso acarreta.
Uma corrente que manipulava a luz de uma forma inovadora, distorcia formas e usava a cor para traduzir estados de alma ao invés de usar representações realistas.
Os cenários são desconjuntadamente fabulosos, quase tão esquizofrénicos como alguns dos personagens. Sombras em forma de triângulos e espirais pintadas nas paredes, mobílias bicudas e desproporcionadas, superfícies deformadas e sinuosas, edifícios de esguelha meio pendurados, portas oblíquas, salas distorcidas com ângulos agudos nos cantos e tectos inclinados, dão a quem vê o filme uma sensação de desorientação e de estranheza, de “out of placement”.

O guarda-roupa, a maquilhagem e o desempenho dos actores também pertence ao mundo expressionista. Cesare, o sonâmbulo parece dançar na sua figura grotesca e o personagem Caligari é tão bizarro que quase se funde com o cenário.
O filme foi feito logo após a I grande guerra e a Alemanha debatia-se com problemas económicos. O orçamento era muito reduzido portanto foi necessário poupar. Poupou-se nos cenários e na iluminação. Os cenários foram todos feitos com papel pintado e alguma madeira. Como não havia dinheiro para a iluminação, o claro escuro de alguns sets foi concebido para substituir parte da iluminação.

caligari

Alguns críticos fazem uma interpretação sociopsicológica do filme como um metáfora do que se passava na Alemanha na época e um protesto contra as autoridades.O medo provocados pela instabilidade política e económica era evocado através de personagens sombrias. Os cenários representavam o estado da sociedade alemã da época. O sonâmbulo do filme representaria a Alemanha e Caligari seria as autoridades alemãs, que tinham incitado a população a cometer crimes – a guerra- por elas. O filme também é visto como uma premonição da subida ao poder de Hitler, um manipulador de mentes para fins malévolos, tal como Caligari. O que já me parece um pouco clarividente a mais.

caligari

A história é contada em flashback pela personagem Francis: O sinistro Dr. Caligari exibe Cesare, um perpétuo sonâmbulo com poderes divinatórios, numa barraca de feira. Este prediz que Alan, um amigo de Francis irá morrer no próprio dia. O que vem a acontecer. A morte de Alan é uma dentre uma série de bizarros assassinatos que ocorrem na cidade. Caligari e Cesare tornam-se suspeitos óbvios. Mais tarde descobre-se que são culpados. Caligari é perseguido por Francis até um hospital para doentes mentais. Onde fica a saber que Caligari é o médico chefe do hospital. Num surpreendente volte face final Francis é apresentado como um dos doentes loucos do hospital que narra esta história a outro doente e Caligari é afinal um homem são. Mas as cenas finais do filme deixam ainda a pairar no ar a questão: será Caligari menos louco que Francis?

Tal como prometido o primeiro texto sobre o mosaico de filmes. Este vem mesmo a propósito e a tempo para as comemorações do 60º aniversário da derrota do regime nazi.

“The birth of nation” é uma adaptação do livro de 1905 “ The clansman” da autoria de Thomas Dixon, um padre racista. O filme tecnicamente muito sofisticado para a época contém importantes avanços artísticos e técnicos para a indústria cinematográfica*, incluindo uma cena colorida (que surge quase no final). Foi um sucesso de bilheteira na época apesar das suas 3 horas de duração e permanece um marco incontornável da história do cinema.


Na primeira parte mostra-se a introdução dos escravos negros nos EUA, a vida quotidiana dos personagens principais na fase pré-guerra civil de 1860 e a dita guerra. As personagens principais são duas famílias amigas, uma sulista, outra do norte, com as implicações que daí advém. Os membros das duas famílias defrontam-se na guerra havendo umas paixonetas à mistura. Os negros são caricaturados estereotipadamente como criaturas más ao longo de toda a primeira parte mas não é demasiado evidente o carácter racista do filme nesta parte.
A segunda parte pode ser considerada como muito mais racista mostrando os negros como selvagens vilões causadores da desgraça. Esta segunda parte mostra o que se passa no pós-guerra no seio das duas famílias e da sociedade - A reconstrução. A ascensão social dos negros e a miséria em que ficaram as famílias do sul. Mas o que interessa reter do filme não é a parte romanceada: Na segunda parte surgem os verdadeiros heróis do filme- O Ku Klux Klan- A organização que vai libertar a sociedade branca dos terríveis negros. O KKK é glorificado.

Pelo exposto fica a saber-se que se trata de um filme extremamente controverso. Na época suscitou um recrudescimento do Ku Klux Klan e dos sentimentos racistas nos EUA. Também ouve motins nalgumas cidades e 2 cenas foram mesmo censuradas.
Ao ver este filme cresce dentro de nós a dúvida. Devo eu condenar e vetar uma obra de arte se o seu conteúdo for ideologicamente condenável ou se for contrário aos meus valores? ( Para mim este foi o verdadeiro valor deste filme. Fez nascer em mim esta dúvida.)

Griffith defendeu-se das acusações de racismo com os seguintes argumentos:

- O filme é a adaptação fiel de uma obra da qual ele, Griffith, não era o autor.

- Todas as pessoas tinham o direito de livre expressão e pensamento quaisquer que fossem as suas ideias. Ao tentarem censurar o conteúdo do filme estariam a cercear essa liberdade.

- E por último um irónico : “Na altura em que fiz o filme eu não era racista.”

No inicio do filme surge o seguinte intertítulo:

“A PLEA FOR THE ART OF THE MOTION PICTURE":

“We do not fear censorship, for we have no wish to offend with improprieties or obscenities, but we do demand, as a right, the liberty to show the dark side of wrong, that we may illuminate the bright side of virtue - the same liberty that is conceded to the art of the written word - that art to which we owe the Bible and the works of Shakespeare.”

Em resposta às criticas e à celeuma causada por “The birth of a nation” Griffith acabou mais tarde por realizar “Intolerância” de que falarei daqui a uns tempos.
Sobre a mensagem veiculada no filme Griffith nunca se pronunciou com clareza e permanece a dúvida:
É um filme racista, um exercício de liberdade de expressão ou pretende apenas narrar factos históricos?
Incontornável é o facto de o filme continuar a suscitar debates actualmente e ainda ser utilizado pela KKK para recrutamento.

*Algumas inovações técnicas : Filmagem nocturna (usando “flashes” de magnésio); Filmagens no exterior; Still-Shots; ângulos de filmagem múltiplos, filmagem de acção em paralelo, panorâmicas, travellings, close-ups, dissolves e fade-outs para mudar de cena.



É disso que se vai falar neste blog nos próximos tempos. Filmes das décadas de 10 e 20 do século passado. À medida que os for revendo vou escrever sobre cada um deles. Os escolhidos são obviamente os meus favoritos, mas recomendo-os a toda a gente. São filmes magnificos que nunca passarão de moda. São muito diferentes uns dos outros e não consigo escolher nenhum como o melhor. Entre o coração e a alma a minha escolha oscila sempre. Do visceral "The birth of a nation" à ficção entusiasta da "viagem à lua" a escolha é impossível.

Alguns realizadores repetem-se e bisam na minha lista. Porque são os melhores! Outros repetem-se na minha lista para as décadas anteriores e/ou posteriores.

É notória a evolução técnica ao longo dessas 2 décadas. Comparar o "viagem à lua" de Meliés com o "un chien andalou" de Buñuel é como comparar a TV a preto e branco com um IMAX. Nisso por mais engenhosos que fossem os realizadores não há volta a dar-lhe...

Os meus escolhidos (de cima para baixo, da
esquerda para a direita ):


  • Nosferatu, o vampiro - F. W. Murnau (1922)
  • Nanook, o esquimó- Robert J. Flaherty (1922)
  • Blackmail - A. Hitchcock (1929)
  • The Birth of a nation- D.W. Griffith (1915)
  • Intolerância - D.W.Griffith (1916)
  • Das cabinett des Doktor Caligari - Robert Wiene (1920)
  • Un chien Andalou - Luis Buñuel, Salvador Dali (1929)
  • Greed - Erich von Stroheim (1924)
  • Viagem à lua - G. Meliés (1914)
  • Metropolis- Fritz Lang (1927)
  • O couraçado Potemkin - S. Eisenstein (1925)
  • Sunrise - F. W.Murnau (1927)

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